O que um produto ou alimento precisa para ser “integral”?

05/out/2021 | 0 Comentários

No dicionário, a palavra “integral” significa:

  • que não sofreu diminuição ou restrição; total, completo.
  • que se apresenta com todos os seus componentes e propriedades originais (diz-se, p.ex., de produto alimentar).

No caso dos alimentos, há uma lacuna já preenchida, em termos de legislação, a respeito dos cereais integrais e sucos na versão integral. Você já viu alguma embalagem de suco envasado alegando que o produto era “integral”?

Pois bem, isso é previsto pela legislação de alimentos da ANVISA, o suco pode ser considerado integral e essa informação pode estar impressa no rótulo caso não haja adição de açúcar e esteja em sua concentração natural, ou seja, não é permitida adição de água ou a utilização do suco desidratado e reconstituído. Também não é permitida a adição de corantes e aromatizantes.

O rigor da legislação para esses alimentos resulta em uma versão mais saudável do que o(a) consumidor(a) estava acostumado a encontrar nas prateleiras, considerando que há redução de aditivos químicos da indústria alimentícia que modificam o sabor e a textura real dos alimentos. Portanto, eles podem ser considerados, na maioria das vezes, alimentos minimamente processados.

Cereais integrais

De forma simplificada, a estrutura dos cereais é formada por endosperma, farelo e gérmen. O processo de refino dos cereais remove o farelo e o gérmen, restando apenas o endosperma, enquanto os cereais integrais apresentam a estrutura completa.

Você, na condição de consumidor(a), já se questionou o motivo para que um pão de forma ou outros produtos de panificação apresentar alegação de “integral” na parte frontal da embalagem e na lista de ingredientes, o primeiro listado ser “farinha de trigo enriquecida com ferro e ácido fólico” e na sequência “farinha de trigo integral” e/ou outras farinhas como de centeio, cevada, aveia, etc?

Esse é um ótimo questionamento, já que a alegação da presença de cereais integrais deveria significar que a maior proporção do produto é de cereais integrais e por muito tempo essa não era uma relação linear.

Porém, a partir de 2022 passa a vigorar uma nova resolução que dispõe de exigências mínimas para que essa alegação possa ser impressa no rótulo.

Com a Resolução RDC nº 493 de 15 de abril de 2021, há novas regras de rotulagem para alegar que o produto é feito à base de cereais integrais. Nesta resolução, para um produto alimentício ser considerado integral, deve ter:

  • No mínimo 30% de cereais integrais;
  • A quantidade dos cereais integrais deve ser superior à quantidade de cereais refinados.

Essa mudança é muito significante para o(a) consumidor(a), que por diversas vezes pode ter sido induzido ao erro consumindo um alimento à base de farinhas refinadas ao invés de cereais integrais, como impresso na parte principal do rótulo. Essas situações também reforçam a necessidade de sempre estarmos atentos(as) à leitura do rótulo por completo. Devemos focar principalmente na lista de ingredientes dos produtos que consumimos, e não somente na composição de nutrientes e calorias ou na arte da parte frontal do rótulo.

Importância de ler os rótulos

Importância de ler rótulos

A leitura completa dos rótulos dos alimentos que consumimos é de fundamental importância. Afinal, não há outra maneira de identificar alimentos ultraprocessados, a presença de algum ingrediente que temos alergia ou intolerância (se for o caso), a presença de algum ingrediente que estamos tentando evitar, por exemplo, açúcares adicionados, gorduras trans, etc.

No ponto de vista de saúde, o elemento mais importante do rótulo é a lista de ingredientes. Os alimentos estão listados em ordem decrescente, ou seja, do alimento que está presente em maior quantidade para o alimento que está presente em menor quantidade. Por essa razão, se a arte na parte frontal do rótulo indicar que aquele iogurte é sabor morango, mas na lista de ingredientes não há morango, significa que há somente o aromatizante de morango adicionado e se você não estiver atento à leitura, pode ser induzido ao erro acreditando que estará consumindo um alimento saudável.

+ Você sabe o que é um produto Clean Label? Entenda o conceito neste post.

Benefícios de consumir alimentos com uma pequena lista de ingredientes ou somente o ingrediente principal

Quando nos tornamos pessoas atentas à leitura do rótulo de alimentos, passamos a ter um senso crítico mais apurado para o consumo.

Então, se estou comprando um iogurte em que o primeiro ingrediente é “açúcar”, devo me questionar se não estou sendo induzido(a) ao erro. Se o primeiro ingrediente da minha pasta de amendoim é “óleo” ou “açúcar”, então a base do produto não é compatível com a informação impressa no rótulo, no ponto de vista de saúde. Busque consumir de empresas que estabeleçam transparência ao alegar informações sobre seus produtos.

O real benefício em consumir alimentos somente com o ingrediente principal que, no máximo, tenha sofrido somente modificações físicas como secagem, moagem, separação de partes não comestíveis ou até mesmo, consumir o alimento na versão integral com todas as suas partes é evitar ingredientes prejudiciais à nossa saúde.

Consumindo alimentos in natura e minimamente processados passamos a evitar o excesso de aditivos químicos como: aromatizantes, corantes, emulsificantes, adoçantes e conservantes. Além de outros ingredientes como gorduras saturadas e trans, xarope de glicose e frutose e outros açúcares, excesso de sal e realçadores de sabor.

O consumo frequente de alimentos ultraprocessados, com a promessa de praticidade, preços baixos e ingredientes que realçam o sabor, modificam a textura, adoçam ou salgam em uma medida que não é encontrada naturalmente, além de trazer malefícios à saúde, também pode reduzir o consumo de alimentos saudáveis.

Isso ocorre porque praticidade, palatabilidade e preços baixos são mais atrativos, considerando todas as nossas atividades diárias. Portanto, seria o mesmo que dizer “veja, você não precisa cozinhar tanto, descascar e cortar frutas, fazer um bolo sozinho(a) ou até mesmo uma almôndega, nós fazemos para que você utilize esse tempo em outra atividade”. De fato, parece atrativo, mas o consumo de ultraprocessados está associado com o desenvolvimento de doenças crônicas não transmissíveis, além disso, tende a afetar negativamente a vida social, cultura alimentar e meio ambiente.

Culturas genuínas podem parecer desinteressantes para jovens que são atingidos pela publicidade de alimentos ultraprocessados, que irão consumi-los para ter a sensação de pertencimento a uma cultura “moderna e superior”.

Como já foi dito, ultraprocessados foram desenvolvidos para levar praticidade ao consumidor, portanto, torna a mesa de refeições, o preparo dos alimentos e o compartilhamento do ato de comer “dispensável”, prejudicando a comensalidade e os momentos de interação social.

Mensagem final

Alimentos industrializados não são a mesma coisa que ultraprocessados, por essa razão, a leitura do rótulo é fundamental. Assim podemos checar a transparência das empresas das quais consumimos e ter uma alimentação mais saudável sem a presença de alimentos ultraprocessados, que trazem prejuízos reais à saúde, cultura, vida social e meio ambiente.

Texto escrito por Gabriella Rocha Pegorin – Nutricionista e Mestra em Ciências da Saúde pela Universidade Federal de São Paulo.

REFERÊNCIAS

Monteiro, C.A., Moubarac, J.-C., Cannon, G., Ng, S.W. and Popkin, B. (2013), Ultra-processed products: global dominance. Obes Rev, 14: 21-28. https://doi.org/10.1111/obr.12107

BRASIL. Resolução RDC Nº 493, de 15 de Abril de 2021. Diário Oficial da União, Ministério da Saúde, Agência Nacional de Vigilância Sanitária, 2021.

BRASIL. Instrução Normativa Nº 49, DE 26 de Setembro de 2018. Diário Oficial da União, Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Gabinete do Ministro, 2018.

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