Adoçantes naturais e artificiais são saudáveis?

18/out/2021 | 0 Comentários

O ser humano nasce com preferência para o sabor doce, isso é inato e universal e também está relacionado com a evolução da nossa espécie. A preferência inata pelo sabor doce nos condicionou a buscar alimentos mais ricos em energia.

Nascer com a preferência para o sabor doce também foi e é importante para a nossa evolução, considerando que o leite materno é naturalmente adocicado e fundamental para a nutrição do recém-nascido até os seis meses de vida. Além disso, há recomendações do aleitamento materno continuado até os 2 anos ou mais.

O sabor doce é tão querido mundialmente que a palavra “doce” deixou de ser somente atributo de sabor e passou a ser um “elogio”, como quando as pessoas dizem “ela é tão carinhosa e doce” ou uma sobremesa agradável que apelidamos de “doce”.

Consumo de açúcar, obesidade e diabetes

O sabor doce passou a ser uma preocupação em função do crescimento da obesidade no mundo, considerando que os dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2016 constam de 650 milhões de pessoas obesas no mundo. Além disso, pessoas diabéticas também devem se preocupar com a ingestão de açúcar.

Contudo, o sabor doce natural dos alimentos nunca deve ser “colocado em xeque”, no caso do leite materno, por exemplo, não é ele quem perpetua essa preferência pelo sabor doce ao longo da vida, nem mesmo as frutas doces consumidas na introdução alimentar. A preocupação deve focar nos alimentos ultraprocessados ricos em açúcar como biscoitos recheados e refrigerantes, por exemplo.

Então, na tentativa de reduzir o consumo de açúcar, substituir o doce do açúcar para pessoas com diabetes e da indústria alimentícia conseguir se adequar às normas de redução do açúcar nas prateleiras de supermercados, surgem os adoçantes naturais extraídos de plantas e os artificiais.

O que são os adoçantes?

“Adoçante” é o nome popular dado aos edulcorantes, embora, toda a substância que tenha poder de dulçor, isso inclui o açúcar e os xaropes de glicose e frutose, são substâncias adoçantes. Mas vamos chamar os edulcorantes de adoçantes nesse texto para facilitar a nossa comunicação.

Os adoçantes artificiais ou naturais são substâncias com baixa ou nenhuma caloria que conferem sabor doce aos alimentos. Eles são uma alternativa para o consumo de açúcar refinado no caso de pessoas com diabetes ou obesidade que estão seguindo uma dieta para o controle de peso.

As metonímias do nosso vocabulário podem nos impedir de reconhecer os adoçantes, isto é, como costumamos atribuir o nome da substância à marca do produto, podemos confundir quais são essas substâncias.

No caso dos adoçantes, o termo “zero cal” ficou muito comum para referir-se aos adoçantes, no entanto, as substâncias têm nomes diferentes e o próprio fabricante comercializa diferentes substâncias, são elas:

  • ciclamato e sacarina sódica (costumam estar juntos)
  • esteviosídeos (stévia)
  • sucralose
  • aspartame

Porém, ainda existem outros adoçantes, que podem ser comercializados para o uso doméstico (exemplo: para adoçar o café) ou para uso industrial em chocolates, biscoitos recheados, balas, refrigerantes, gelatinas, etc.

  • xilitol
  • acessulfame de potássio (acessulfame-k)
  • polidextrose
  • sorbitol

Os adoçantes podem ser naturais e extraídos de vegetais, cereais e frutas, como os polióis (manitol, sorbitol, xilitol), taumatina e esteviosídeos (popularmente conhecido como stévia). Os adoçantes fabricados em laboratórios como acessulfame-K, aspartame, ciclamato, sacarina sódica e sucralose são os adoçantes artificiais.

Adoçantes são mais saudáveis do que açúcar?

A resposta para essa pergunta é “depende”.

Para uma pessoa diabética, a substituição do açúcar pelo adoçante é favorável e importante para o controle da glicemia, que também deve ser feito através do controle da ingestão de outros alimentos fontes de carboidrato, com preferência para os alimentos ricos em fibras.

Para uma pessoa que está fazendo controle de peso, pode ser favorável, mas não é tão relevante quanto para uma pessoa diabética.

Para a população saudável, devemos lembrar que o limite de ingestão de açúcar diário deve ser de 5% do valor energético total da dieta, que em uma dieta de 2000kcal é representado por 25g de açúcar por dia, equivalente a um copo de 250ml de coca-cola, aproximadamente.

Nesse caso devemos fazer mais ponderações, será que preciso ter mais alimentos doces na dieta além do limite estabelecido pela OMS? Mas o adoçante pode ser uma alternativa se o consumo do açúcar já foi excedido.

Leia também: como escolher alimentos ricos em fibras?

Quem garante a segurança dos adoçantes?

Embora existam estudos que associam o consumo de adoçantes artificiais com o risco de câncer, devemos ter em mente que foram conduzidos com animais experimentais (ratos) e que, quando transferida a mesma pergunta em estudos conduzidos com humanos, esse potencial cancerígeno se demonstrou questionável. Nesse quesito, os adoçantes são seguros.

O Joint Expert Scientific Committee on Food Additives (JESCFA) é um comitê científico da FAO/OMS (Food Agriculture Organization/Organização Mundial da Saúde) responsável por estabelecer uma “ingestão diária aceitável” (ADI) de aditivos alimentares, como os adoçantes, por exemplo.

A ingestão diária aceitável é definida como a estimativa da quantidade de um aditivo alimentar, expressa de acordo com o peso corporal (kg), que pode ser ingerida ao longo da vida sem riscos à saúde baseados no conhecimento científico atual.

Essa estimativa deve considerar que a ingestão não resultará em nenhum dano à saúde humana, mesmo quando o aditivo é consumido durante uma vida inteira. A medida utilizada para definir uma ingestão diária aceitável varia entre 0 a X (número desconhecido) miligramas por quilograma de peso por dia (mg/kg/dia).

A avaliação da segurança do aditivo é baseada em uma revisão científica de todos os estudos que avaliaram o potencial toxicológico dos aditivos alimentares, tanto em humanos como em animais experimentais.

É necessário avaliar quais são os riscos da utilização do aditivo e seus derivados durante longos períodos. Partindo desse ponto, a ingestão diária aceitável é estabelecida de acordo com o “nível de efeito adverso não observado” (NOAEL).

Basicamente, NOAEL é o nível dietético mais elevado de um aditivo no qual nenhum efeito adverso foi observado nos estudos científicos e é expresso em miligramas do aditivo por quilograma de peso corporal por dia (mg/kg/dia).

O NOAEL é dividido por um fator de segurança, geralmente 100, que resulta em uma grande margem de segurança.

Tabela de ingestão diária aceitável de adoçante

Adoçante Ingestão diária aceitável Poder de dulçor
Aspartame 40 mg/kg 200x maior que o açúcar de mesa (sacarose)
Ciclamato 11 mg/kg 40x maior que o açúcar de mesa (sacarose)
Sacarina 5 mg/kg 300x maior que o açúcar de mesa (sacarose)
Stévia 5,5 mg/kg 300x maior que o açúcar de mesa (sacarose)
Sucralose 15 mg/kg ~600x maior que o açúcar de mesa (sacarose)
Xilitol Não especificado Não especificado

Fonte: United States Dietary Guidelines – Recommended Daily Allowance (RDA)

Percebam pelos valores de ingestão diária aceitável, como é difícil atingir o limite de consumo colocando 3 gotinhas (0,2ml) de adoçante no café diariamente. O limite de sucralose diário para uma pessoa de 70kg seria de 1050mg.

Embora os adoçantes sejam seguros para o consumo em pequenas doses diárias, é importante lembrar que também são utilizados pela indústria de alimentos para fornecer dulçor aos alimentos ultraprocessados, tendo em vista que o poder de dulçor é maior que o da sacarose e isso resulta em redução de custos para a empresa, além da possibilidade de alegação de redução de açúcar.

Portanto, é importante utilizar adoçantes em pequenas quantidades no dia-a-dia. Adoçar o seu café com poucas gotas de adoçante não vai te causar danos severos à saúde, mas se você é do tipo que faz da base da sua alimentação os alimentos ultraprocessados como refrigerantes, biscoitos recheados, sorvetes, etc, deve ficar atento(a).

Não só pelo consumo de adoçantes, mas também pelo consumo de outros aditivos da indústria alimentícia que não são saudáveis.

Leia também: O que um alimento precisa para ser considerado “integral”

Outro ponto importante, é que os adoçantes podem afetar a saúde da microbiota intestinal. Além disso, os adoçantes do grupo de polióis, como o xilitol e sorbitol são FODMAPs e podem causar flatulência e desconforto gastrintestinal em pessoas saudáveis, e ainda, não são recomendados para pessoa com doenças intestinais.

Mensagem final sobre os adoçantes e a sua utilização:

Adoçantes são seguros, mas devem ser consumidos em pequenas quantidades caso o sabor ácido ou amargo natural do alimento não seja suportável ou não agrade o seu paladar, contudo, é importante fazer o exercício de se adaptar com o sabor natural da maioria dos alimentos.

Devemos ficar mais atentos(as) com os adoçantes presentes nos alimentos ultraprocessados que consumimos do que na pequena quantidade que adicionamos aos cafés e/ou chás que consumimos.

Pessoas diabéticas e em controle de peso podem se beneficiar do uso de adoçantes, mas devem fazer isso com cuidado e atenção, afinal, a base de uma alimentação saudável é o consumo de alimentos in natura e minimamente processados como frutas, legumes e verduras, feijões e cereais integrais.

Texto escrito por Gabriella Rocha Pegorin – Nutricionista e Mestra em Ciências da Saúde pela Universidade Federal de São Paulo.

REFERÊNCIAS

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