Carboidratos e lipídeos: o que são e para que servem?

17/nov/2021 | 0 Comentários

Carboidratos e lipídeos (gorduras) são vilanizados por diversas dietas da moda, normalmente não ao mesmo tempo, ambos contribuem com energia na dieta e, portanto, algumas dietas da moda com a premissa de emagrecimento costumam orientar a exclusão de um ou outro.

Por exemplo, no caso das dietas low fat, em que há redução da oferta de gorduras, na dieta low carb que é reduzida em carboidratos, na dieta Dukan, com alto teor de proteínas e baixo teor de carboidrato e a dieta Atkins, com alto teor de proteína e gordura, mas pobre em carboidratos.

Os argumentos usados por quem defende a exclusão de um nutriente ou outro é sempre baseado na ausência da necessidade, por exemplo: “não precisamos de carboidrato, o nosso cérebro pode usar corpos cetônicos como fonte de energia na ausência de glicose”.

Mas será que, de fato, esses nutrientes não exercem nenhuma função importante na saúde humana e são totalmente dispensáveis?

O que são carboidratos e para que servem?

Os carboidratos são as biomoléculas mais abundantes na natureza. O termo carboidrato significa “hidrato de carbono”, essa nomenclatura simplifica a fórmula química geral da maioria dos carboidratos (CH2O)n .

Já o termo “sacarídeos”, que são sufixos comuns das classificações dos carboidratos (ex. polissacarídeos e monossacarídeos), é proveniente da palavra grega “SÁAKHARON” traduzida livremente como “açúcar”.

Os carboidratos são chamados comumente de açúcares, mesmo quando não apresentam dulçor como a sacarose (nosso açúcar de mesa), por exemplo.

Os carboidratos apresentam diversas funções na natureza e organismo humano, entre elas:

  1. Função energética: talvez seja a principal função dos carboidratos. De fato, os carboidratos são os principais produtores de energia na forma de ATP (adenosina trifosfato), uma molécula constituída por uma ribose (um tipo de carboidrato) ligada à adenina e três grupos de fosfato. Com exceção dos vírus, a maioria dos seres vivos utiliza os carboidratos como principal fonte de energia, esse também é o caso de nós seres humanos. Basicamente, no organismo humano, nós “quebramos” a glicose para formar ATP (nossa moeda de energia) através de processos chamados Glicólise e Ciclo de Krebs.
  2. Função estrutural: a parede dos vegetais é revestida por carboidrato na forma de celulose, o exoesqueleto dos artrópodes (ex. aranhas, escorpiões e insetos) é formado por quitina, um polissacarídeo, ou seja, também é um carboidrato.
  3. Reserva de energia: No reino vegetal o armazenamento de energia em forma de carboidrato se dá através de amido e nos animais, através de glicogênio, que pode ser armazenado nos músculos e no fígado.

De modo geral, os carboidratos são importantes fontes de energia, inclusive, fundamental para o nosso sistema nervoso central.

Além disso, o consumo adequado de carboidratos exerce um efeito “poupador” das proteínas, que têm um papel estrutural fundamental na massa muscular, se há carboidrato suficiente, nosso organismo não precisará gerar energia a partir das proteínas.

Os carboidratos na forma de fibras têm também um papel muito importante no trânsito intestinal.

Entenda: Benefícios de consumir frutas diariamente

Carboidratos simples x complexos

Os carboidratos são divididos em classes de acordo com as ligações glicosídicas:

  • Monossacarídeos são as estruturas de carboidrato mais simples, por exemplo, a frutose, galactose, ribose e glicose.
  • Oligossacarídeos: união entre dois a dez monossacarídeos, exemplo: glicose + frutose=sacarose (açúcar de mesa), glicose + galactose=lactose.
  • Polissacarídeos: são os carboidratos mais complexos, formados por polímeros de 10 ou mais monossacarídeos de estruturas lineares ou ramificadas, por exemplo, o amido.

Carboidratos simples referem-se aos monossacarídeos ou dissacarídeos com estruturas mais simples, os carboidratos complexos são os polissacarídeos, entre eles está o amido e o glicogênio, por exemplo.

Por essa razão, há uma enorme contradição quando se diz que está evitando carboidratos simples e por isso, recusa amido, mas aceita alguma preparação com leite, que tem o carboidrato simples que dá origem a lactose (galactose).

Os termos “simples” e “complexo” referem-se à classificação dos carboidratos por meio das ligações glicosídicas. Quando queremos um carboidrato “integral” estamos nos referindo ao teor de fibras ou talvez até na carga glicêmica do alimento.

Então, unindo a informação de que há reserva de glicogênio no músculo e no fígado e que glicogênio é um polímero de carboidrato, você pode se perguntar “então há presença de carboidrato na carne?”, mas a resposta é não, porque o processo de rigor mortis que transforma o músculo na “carne” resulta na remoção do conteúdo de glicogênio muscular, bem como alteração de outras características do músculo animal quando estava em pleno funcionamento.

Carboidratos e diabetes

Pessoa fazendo teste de diabetes

A diabetes é uma doença causada pela alteração da produção e metabolismo da insulina, o hormônio que regula a glicose sanguínea.

Basicamente, a insulina sinaliza que a glicose deve ser absorvida. Se há alteração da produção de insulina, a glicose continuará circulando na corrente sanguínea, podendo resultar em complicações na saúde cardiovascular, nos olhos, nos rins, na saúde do sistema nervoso, etc.

Veja também: Índice glicêmico e carga glicêmica

Os estudos de revisão sistemática com meta-análise sobre a restrição de carboidratos na dieta em pessoas diabéticas identificaram alguns problemas sérios nas pesquisas que foram conduzidas:

  • A baixa adesão dos participantes – afinal, é difícil manter uma dieta restrita em carboidratos, considerando que frutas, pães, cereais, massas e feijões são fontes de carboidrato.
  • A dificuldade em definir o que é uma dieta “restrita em carboidratos”, considerando que a recomendação de carboidratos das DRIs (Dietary References Intakes) é de 45-65% do valor energético total da dieta, algumas referências da nutrição esportiva, como o American College of Sports Medicine (ACSM) consideram uma ingestão mínima de 3g/kg de massa corporal de carboidrato. Considerando essas informações, o que seria uma dieta restrita em carboidratos? Menos de 3g/kg de massa corporal já é uma dieta com baixo teor de carboidratos? Menos de 45% do valor energético total da dieta em carboidratos seria suficiente?
  • O tempo de intervenção também costuma ser curto, por exemplo, inferior ou igual a 6 meses de duração, para entendermos melhor qualquer benefício de uma dieta restrita em carboidratos para a população com diabetes, os estudos deveriam ter uma duração maior, contudo, enfrentam a primeira dificuldade citada: baixa adesão.
  • O controle da dieta do grupo que não participaria da intervenção. Ou seja, se eu quero comparar um grupo que está recebendo uma intervenção dietética e um grupo que pode estar com a glicemia totalmente descontrolada e a dieta livre sem nenhuma intervenção, eu posso assumir que qualquer intervenção seria benéfica. Mas para testar se a intervenção dietética é de fato efetiva, preciso compará-la com outros tipos de intervenção também. Caso contrário seria como dizer “é melhor do que não fazer nada”.

De modo geral, há estudos que apontam o controle glicêmico, a dieta mediterrânea ou uma redução do consumo de carboidratos, priorizando alimentos ricos em fibras como cereais integrais, hortaliças e frutas em quantidades adequadas são boas estratégias para o controle da glicemia em pessoas com Diabetes.

O que são lipídeos e quais são as suas funções?

Os lipídeos são moléculas formadas por ácidos graxos e glicerol que desempenham funções importantes na natureza, por exemplo:

  1. Compõem as membranas biológicas: os nossos tecidos apresentam lipídeos como parte da estrutura, porque as membranas celulares apresentam camadas de fosfolipídeos.
  2. Os lipídeos também são fonte de energia: embora nosso organismo priorize a utilização de carboidratos como fonte de energia, por essa razão, a oxidação de lipídeos é uma forma secundária e mais lenta de obtenção de energia. Contudo, os lipídeos representam fontes significantes de energia na dieta, considerando que cada grama contém cerca de 9kcal.
  3. Precursores da produção de hormônios como testosterona e estradiol, por exemplo.
  4. Realiza transporte de vitaminas lipossolúveis (aquelas que são absorvidas na presença de gordura – A, D, E, K).
  5. Proteção térmica e física: garantindo proteção contra choques mecânicos e baixas temperaturas.

Onde são encontrados os lipídeos?

Foto de nozes

Além dos lipídeos encontrados armazenados no nosso corpo em forma de tecido adiposo e envolvendo as membranas celulares, por exemplo, os lipídeos são encontrados nos alimentos de origem vegetal como os óleos e azeites vegetais de milho, oliva, soja, girassol, amendoim, coco, etc.

Frutas como abacate e coco apresentam naturalmente lipídeos em sua composição.

Os lipídeos alimentares também estão presentes nos alimentos de origem animal como carnes e banhas (considerando que os animais possuem uma estrutura similar e, portanto, tecido adiposo), derivados do leite como manteiga e creme de leite.

No geral, os lipídeos que devem ser limitados na dieta são os que apresentam maior teor de gorduras saturadas, como o óleo de coco, banha de porco e manteiga, por exemplo. Os óleos e azeites vegetais de milho, soja e oliva são opções mais saudáveis.

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Mensagem final

Carboidratos e lipídeos (gorduras) são nutrientes que apresentam funções importantes na natureza e saúde humana, não é necessário excluir um ou outro para ter uma dieta saudável.

Texto escrito por Gabriella Rocha Pegorin – nutricionista e mestra em Ciências da Saúde pela Universidade Federal de São Paulo.

REFERÊNCIAS

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Sartorelli, Daniela S. e Cardoso, Marly A.Associação entre carboidratos da dieta habitual e diabetes mellitus tipo 2: evidências epidemiológicas. Arquivos Brasileiros de Endocrinologia & Metabologia [online]. 2006, v. 50, n. 3, pp. 415-426.

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Ajala, O., English, P., & Pinkney, J. (2013). Systematic review and meta-analysis of different dietary approaches to the management of type 2 diabetes. The American journal of clinical nutrition, 97(3), 505–516.

McArdle, P. D., Greenfield, S. M., Rilstone, S. K., Narendran, P., Haque, M. S., & Gill, P. S. (2019). Carbohydrate restriction for glycaemic control in Type 2 diabetes: a systematic review and meta-analysis. Diabetic medicine : a journal of the British Diabetic Association, 36(3), 335–348.

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