Índice glicêmico e carga glicêmica

10/nov/2021 | 0 Comentários

Na década de 1980 surgiu o conceito de índice glicêmico na nutrição clínica através de estudos realizados por pesquisadores canadenses. A ideia inicial era identificar o comportamento da glicemia de grupos de 5 a 10 pessoas saudáveis após o consumo de alimentos comuns da dieta, foram avaliados 62 alimentos de diversos grupos como frutas, cereais e hortaliças.

Nos anos 2000 as dietas de baixo índice glicêmico se popularizaram e revistas eram vendidas junto às tabelas de índice glicêmico para sugestionar leitores a consumir somente os alimentos de baixo índice glicêmico e, portanto, garantir uma vida mais saudável e/ou emagrecimento. Mas há algumas questões problemáticas ao utilizar o índice glicêmico como parâmetro de qualidade dos alimentos.

Uma dessas questões problemáticas está na própria maneira de avaliar o índice glicêmico. A definição do índice glicêmico dos alimentos presentes nessas tabelas se dá através da avaliação de 50g de carboidratos disponíveis no alimento. Um alimento fonte de carboidrato não é composto somente por carboidrato, mas também por água e outros nutrientes.

Ou seja, 50g de melancia não é igual a 50g de carboidrato, na verdade, a quantidade de carboidrato em uma porção de 50g de melancia é de 4g. Para atingir 50g de carboidrato na melancia é necessário consumir uma quantidade muito grande do alimento (cerca de 600g de melancia).

Leia também: qual a diferença entre os tipos de açúcar?

O exemplo da melancia é interessante porque o índice glicêmico da melancia quando comparado a glicose é de 72, que é considerado moderado. Nos anos 2000, diversas revistas que vendiam receitas milagrosas para emagrecimento estampavam a melancia na capa da “dieta do índice glicêmico” com a ideia de mostrar uma “quebra de paradigma” sobre um alimento considerado saudável.

A qualidade dos carboidratos na dieta é questionada há muito tempo. Mas será que o índice glicêmico é a melhor maneira de fazer essa avaliação?

Índice glicêmico x carga glicêmica

A glicemia pós-prandial é influenciada pela velocidade em que os carboidratos consumidos através dos alimentos são liberados para a corrente sanguínea. A resposta glicêmica ao consumo de alimentos envolve a qualidade e quantidade dos carboidratos consumidos na refeição. Os efeitos dos carboidratos consumidos nas concentrações de glicemia e insulina variam, mas podem ser avaliados pelos conceitos de índice glicêmico (IG) e carga glicêmica (CG).

Conheça os nutrientes que encontramos no amendoim

O IG é é determinado pela relação entre a área abaixo da curva de resposta glicêmica duas horas após a ingestão do alimento e a área abaixo da curva de resposta glicêmica referente a ingestão do alimento de critério de referência (normalmente é o pão de farinha refinada ou glicose na mesma quantidade de carboidrato do alimento que está sendo testado). O valor resultante dessa relação é multiplicado por 100, o IG é expresso em porcentagem.

Fórmula para índice Glicêmico

Contudo, o IG não considera uma porção habitual de consumo e nem a presença de outros alimentos com diferentes IGs na refeição. Já a CG mensura o efeito da quantidade total de carboidrato ingerida em uma refeição sobre a glicemia, sendo mais realista quanto ao consumo habitual dos alimentos, portanto, mais relevante.

Fórmula para Carga Glicêmica

Por exemplo, no caso da melancia, o consumo de 600g de melancia resultaria em 50g de carboidrato e então, um IG de 72. Mas uma fatia de 120g teria uma CG de 4, considerada baixa.

Há diversos fatores que influenciam no IG e na CG, alguns reduzindo e outros aumentando.

Entre os fatores que reduzem o IG dos alimentos estão:

  • O tipo de amido presente no alimento: razão amilose/amilopectina alta (exemplo: arroz parboilizado);
  • As interações entre os outros macronutrientes presentes no alimento, por exemplo, a presença de gordura e proteína tornam a digestão mais lenta;
  • Revestimento fibroso de alguns alimentos age como barreira física dificultando o acesso de enzimas digestivas ao amido presente no interior do alimento como no caso de feijões e sementes;
  • A menor gelatinização do amido reduz a velocidade da digestão, uma vez que a área de contato com enzimas digestivas diminui. A gelatinização do amido é um processo que faz com que, por exemplo, o amido de milho com ação da temperatura e adição de líquido se torne um mingau;
  • A adição de fibras gera uma redução da velocidade da digestão e diminuem a velocidade das enzimas digestivas com o amido.

Entre os fatores que aumentam o IG dos alimentos estão:

  • Aumento da área de contato das enzimas digestivas com o alimento (triturar, moer, cozinhar, etc).

De maneira geral, a adição de alimentos fonte de fibra, gordura e proteína (exemplos: iogurtes, leites, aveia, frutas, hortaliças e vegetais, cereais integrais e feijões) junto aos alimentos de moderado a médio IG diminuem a carga glicêmica da refeição, portanto, o IG por si só não é o melhor parâmetro para avaliar a qualidade dos alimentos fontes de carboidrato presentes na refeição.

Dieta com controle glicêmico: serve para quem?

Prato de comida para controle glicêmico

O controle glicêmico é importante em pacientes com Diabetes Mellitus, uma condição em que há presença de hiperglicemia em decorrência de alteração da ação e/ou secreção de insulina e está associada a outras complicações, como por exemplo, doenças cardiovasculares.

Contudo, há um debate científico que deve ser considerado sobre o uso das informações de tabelas de IG para a realização desse controle, considerando principalmente, que a utilização de informação sobre o IG não considera a refeição completa. A CG é um parâmetro melhor para a avaliação da qualidade de carboidratos.

Com relação ao risco para o desenvolvimento de Diabetes Mellitus, há uma controvérsia em revisões sistemáticas publicadas até na mesma revista. No ano de 2018, uma revisão sobre estudos que investigaram a relevância do controle glicêmico no controle de peso, doença cardiovascular e diabetes concluiu que as evidências são controversas e que a maneira mais relevante de realizar promoção de saúde e prevenção de doenças é orientando o aumento do consumo de hortaliças e vegetais, cereais integrais e frutas, uma vez que o conteúdo de fibras pode ser mais relevante do que o controle do IG dos alimentos na dieta.

No ano seguinte, em 2019, outra revisão sistemática sobre estudos epidemiológicos que investigaram a relação de causalidade entre IG e CG e o desenvolvimento de Diabetes Mellitus concluiu que há relação entre dietas com alto IG e CG e desenvolvimento de diabetes, portanto, que esses parâmetros podem ser preditores importantes de saúde pública e devem ser considerados durante a orientação nutricional.

De modo geral, para pessoas que buscam emagrecimento, uma dieta com controle glicêmico pode não ser tão relevante, considerando que o fator principal para uma dieta com finalidade de emagrecimento é a restrição calórica realizada de forma constante e saudável para que não haja prejuízos na saúde.

Dieta cetogênica: o que é e como funciona?

Mensagem final sobre índice glicêmico e carga glicêmica

O controle glicêmico é fundamental em pacientes com Diabetes Mellitus, contudo, há uma discussão se a utilização de tabelas de índice glicêmico são relevantes para esse controle, considerando que o parâmetro mais importante a ser avaliado nesse caso é a carga glicêmica da refeição. Ainda, a orientação nutricional baseada na carga glicêmica pode ser um desafio, considerando que há também variabilidade individual na resposta glicêmica.

No caso de dietas para emagrecimento, as pessoas surfaram na onda da dieta de baixo índice glicêmico durante algum tempo e até hoje se fala sobre a importância da glicemia pós-prandial na saúde humana, mas com um olhar voltado para a “ativação da insulina”, um hormônio responsável pela redução da glicose na corrente sanguínea permitindo sua entrada nas células. A premissa dessa nova onda de dietas é sugerir que uma dieta sem ou com a menor quantidade possível de carboidratos é mais saudável.

Contudo, uma dieta saudável deve ser baseada no consumo de alimentos in natura e minimamente processados como frutas, cereais integrais, leites e derivados e leguminosas, considerando que o emagrecimento deve ter como fator principal a restrição calórica e o controle da glicemia pós-prandial pode não ser tão relevante nesse caso.

Texto escrito por Gabriella Rocha Pegorin, nutricionista e mestra em Ciências da Saúde pela UNIFESP – Universidade Federal de São Paulo

REFERÊNCIAS

Jenkins DJ, Wolever TM, Taylor RH, et al. Glycemic index of foods: a physiological basis for carbohydrate exchange. Am J Clin Nutr. 1981;34(3):362-366.

Silva, Flávia Moraes et al. Papel do índice glicêmico e da carga glicêmica na prevenção e no controle metabólico de pacientes com diabetes melito tipo 2. Arquivos Brasileiros de Endocrinologia & Metabologia [online]. 2009, v. 53, n. 5.

Brand-Miller J, Buyken AE. The Relationship between Glycemic Index and Health. Nutrients. 2020;12(2):536.

Atkinson FS, Foster-Powell K, Brand-Miller JC. International tables of glycemic index and glycemic load values: 2008. Diabetes Care. 2008;31(12):2281-2283.

Vega-López S, Venn BJ, Slavin JL. Relevance of the Glycemic Index and Glycemic Load for Body Weight, Diabetes, and Cardiovascular Disease. Nutrients. 2018;10(10):1361.

Livesey G, Taylor R, Livesey HF, et al. Dietary Glycemic Index and Load and the Risk of Type 2 Diabetes: Assessment of Causal Relations. Nutrients. 2019;11(6):1436.

Livesey G, Taylor R, Livesey HF, et al. Dietary Glycemic Index and Load and the Risk of Type 2 Diabetes: A Systematic Review and Updated Meta-Analyses of Prospective Cohort Studies. Nutrients. 2019;11(6):1280.

0 comentários

Enviar um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.